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sábado, 2 de julho de 2011

A Possibilidade Relacional entre Religião e o Conhecimento

Sergio Gil1

Uma relação coexistente entre a religião e o conhecimento traduz a existência ambígua da revelação e a ciência, ou da fé e razão. Para muitos, estas são totalmente diferenciadas e distintas e por isso, não têm condições se portarem juntas. Será que isto é uma verdade? E que verdade seria, a revelada ou a científica? Na verdade revelada, transcrita através de esforços transmissivos, como a teologia, são utilizadas formas lingüísticas e simbólicas. Seria suficiente para razoabilizar esta questão? Levando-se em conta esta satisfação, por intermédio do símbolo e da lingüística, como se dariam suas perspectivas educacionais, e como se daria o progresso pedagógico nesta instância? Talvez os ritos pudessem nos trazer uma resposta satisfatória quanto o funcionamento e abrangência mitológica na sociedade, tornando assim, algo mais científico e observável, além de proteger e conservar o que atesta ser verdade revelada. Seria este caminho a ser tomado?
Quando tocamos nas formas simbólicas, fatalmente, nos lembramos das teóricas freudianas sobre os símbolos e o quanto estes fazem parte de nossas vidas cotidianas. A fórmula freudiana consiste em determinar que o símbolo seja constituído de simbolizante, e simbolizado
As controvérsias diante dos símbolos sempre foram e continuam sendo alvo de arraigados debates, conquanto a veracidade dos mesmos. Antes mesmo de descobrirmos esta veracidade é preciso que descubramos o que é verdade. A filósofa Marilena Chauí descreve que a verdade é interpretada como "
essência do objeto estudado, deixando de lado a aparência, pois esta é escravizadora. Uma interessante frase de Paulo Freira nos leva a reflexão:
2. Como, por exemplo, a cruz. É um símbolo. Simbolizante de morte, que para os cristãos, simboliza um recomeço uma nova vida, uma extensão de vida. Para os não cristãos, simboliza simplesmente o fim. Não obstante, no tocante ao teológico o símbolo oferece influência específica quanto ao que se deve lembrar, e ao que se deve reconhecer diariamente. O símbolo mantém uma unidade para a reflexão em um só caminho. Talvez funcione como um código, uma orientação, um direcionamento. Utilizando o mesmo símbolo, anteriormente, mencionado de maneira teológica, a cruz oferece a idéia de sacrifício, de morte por outro, por substituição, pela necessidade. O mesmo símbolo significa perdão, renovo e uma nova oportunidade, renascer. O conhecimento científico não possui ferramentas para chegar ao que move esta verdade, mas pode, contudo, observar o fenômeno que ocorre conquanto as mudanças ocorridas, na vida dos homens, a partir destas traduções teológicas. aletheia/competência" (gregos), "veritas/correspondência" (latim - romanos), "emunah" (hebreus/consenso) e a pragmática3. Para tanto, a verdade aletheia, seja um acordo entre o pensamento e a realidade. As subseqüentes, veritas e emunah sejam um acordo entre o pensamento e a lingüística, ambos em si. Sendo que veritas correspondente aos fatos que ocorreram e emunah ao consenso do que virá. Ambos os conceitos definem a verdade como o consenso ou o acordo para todos. Abastecidos destes conceitos, a consensualidade simbólica, suas correspondências, e seu pragmatismo, ou o uso práticos destes, promovem a educação e o aprendizados de conceitos de vida, de atos e direcionamento de sociedades. A verdade deve libertar, deve conceder o encontro com a "teologia deveria estar envolvida com a educação libertadora e uma educação
libertadora deveria estar envolvida com a teologia
 4 Carlos Alberto Torres Novoa. Diálogo com Paulo Freire, p. 39. 5 Girardi, Rene. Violência e o Sagrado. São Paulo: UNESP. Paz e Terra, 1990. 6 __________. Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
Com a sua famosa frase, Paulo Freire expressa:
É observável, através de fatos, de notícias e até de experiências próprias que a sociedade moderna, em âmbito mundial, sofre com o comportamento de jovens que não sabem como viver diante dos desafios modernos. As deturpações de conceitos, a falta de valorização da vida, os objetivos fúteis, a idéia de valer o quanto tem, e não o quanto é. A preocupação com coisas passageiras e corruptíveis e o desprezo com as coisas incorruptíveis, nos mostram que há um erro na educação. Talvez, faltem os símbolos. Rene Girardi, um importante antropólogo, trabalha com a tese do "
Mario Sergio Cortella cita em sua obra: "
sempre mudando, sempre crescendo, sempre aprendendo. Por certo, Heráclito de Éfeso
 9 KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valério Rohden e António Marques. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 1993. 10 Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach, 1953
7 Mondim, Battista. Curso de Filosofia, Vol. 01. São Paulo: Paulus, 2008. Pg. 28
8 Idem. Pg 31
"ninguém educa ninguém, nós nos educamos em comunhão". Verdades consensuais, verificadas e atestadas, que correspondem aos fatos e podemos verificar seus efeitos pragmáticos. Ora, uma sociedade educada gera a libertação da prisão do desconhecimento, da falta de diálogo, e do expressar sentimentos. Importantes e primordiais para a identificação de problemas, deficiências e a descoberta de soluções. Sabemos que a falta de verdade é tornada quando qualidades e propriedades, não são cabíveis aos objetos estudados, ou quando negamos os mesmos quando são cabíveis. Sem educação, não poderíamos identificá-los. É relevante o fato de que uma educação "comungante" e libertadora das opressões sociais que a própria estrutura humana cria, pode criar um ambiente saudável e verdadeiro. A prática desta educação verdadeira é competente, consensual, e correspondente às nossas necessidades, portanto, de profunda utilidade. mimetismo", ou seja, o homem tem o desejo de tomar o que o outro tem. A complexidade deste sentimento, segundo Girardi, é encontrada em toda a sociedade e em todos os tempos5. É tão forte que a econtramos, inclusive, nos mitos, os quais são reverberações de sentimentos humanos "deusificados". Sem os símbolos, como por exemplo, do perdão, não poderíamos solucionar tal problema. Seríamos uma sociedade autodestrutiva, ou nem seríamos mais sociedade. Rene Girardi menciona que o que mimetismo desenha o desejo de ser o outro e, quando isto não é possível, ocorre a violência. Esta violência também pode ser observada quando o outro desejado não quer que o que deseja obtenha êxito. A violência aí seria recíproca. Para satisfazer este conflito ocorre a eleição de um "bode expiatório6". Alguém que é sacrificado, alguém que é marginalizado, para pagar esta violência. Os jovens da sociedade moderna estão elegendo "bodes expiatórios" para manifestarem sua violência. O desafio da Educação Religiosa é pleno conquanto procure demonstrar a importância dos ritos, dos símbolos, dos mitos, neste processo de aprendizagem e de verdades consensuais contrariando as verdades individuais, destrutivas e aparentes. Um rito interessante seria trazer à memória a idéia de um mito que traz símbolos objetivando um sacrifício de alguém que foi marginalizado, alguém que tentaram imitar de forma negativa, alguém que é violentando, mas este mesmo alguém ressurgiu depois da violenta morte e, está disposto ao perdão. Com isto, este alguém, que é o Jesus de Nazareth, não extermina a "mimesis", mas oferece uma solução para a violência, o perdão. Por que não, ensinar isto aos jovens da sociedade moderna? Não nascemos prontos. Provocações Filosóficas", que o homem não nasce feito em sua capacidade racional, muito pelo contrário, estamos 7 (VI a. C.), iria concordar com esta exposição, defendendo que tudo muda. Tudo o que existe sofre mudanças. Em contra partida, Parmênides8 (séc. V a. C.) afirmando que tudo é, e não existe o não ser, pois se não é, não existe, sendo que, as mudanças são simplesmente ilusões. O ser continua ser. Neste caso, considero que a verdade não muda. A sua essência não pode mudar, no entanto, nós mudamos e nos adequamos a ela. Estamos sofrendo uma permanente mudança, com permanentes aprendizados, com perspectivas de erros e também de acertos, considerando as diversas formas de expressão e, respeitando as diversas formas mitológicas e de ritos para expressar a verdade. Uma verdade que pode ser observável como fenômeno e uma verdade que simplesmente é sob a forma de "noumeno"9 (objecto ou evento postulado que é conhecido sem a ajuda dos sentidos, na Filosofia de Kantiana). Entender isto não é uma tarefa fácil, muito pelo contrário. Imaginemos então ensinar isto... O grande desafio é crescermos juntos. Usar a "mimesis10" de formar sadia encontrando a solução para a violência e o descaso com os oprimidos. Uma educação que traz libertação, com símbolos teológicos proponentes da comunhão, do estar juntos, aprendermos juntos, resolver juntos, sentir juntos, viver juntos, parafraseando Paulo Freire. Como pessoas, precisamos aprender muito com tais pensamentos e como educadores precisamos respeitá-los em cada indivíduo lutando para o crescimento de todos. Aprendermos juntos por uma sociedade sadia. Para que se torne habitável o nosso ambiente.

1 Sergio P. Gil de Alcantara é Pastor Protestante, Psicanalista Clínico, Professor. Mestre em Filosofia da Religião, pós graduado em Teologia Comparada, bacharel em Teologia e Filosofia e Licenciando em Sociologia
2 FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. Capítulo VI "O trabalho do sonho", Obras Completas, vol. V, Rio de Janeiro, Imago, 1972. 3 Chauí, Marilena. Convite a Filosofia. Unidade 3. A Verdade. Capítulo 3. As Concepções da Verdade. São Paulo: Ed. Ática, 2000.
."4

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